Eu tinha talvez oito anos quando descobri que uma voz podia ser um estádio inteiro. No velho gravador Silver do meu pai — um daqueles que devoravam pilhas grandes e fitas cassete de noventa minutos com a mesma rapidez — eu gravava transmissões de futebol como quem estoca água durante o racionamento. Eu guardava os gritos, as pausas e os silêncios tensos antes do pênalti. Acima de tudo, eu guardava as palavras: aquelas construções quase impossíveis que os comentaristas criavam em décimos de segundo para descrever o que nenhuma imagem conseguia capturar por completo.
Comentaristas de futebol e o poder da emoção coletiva
Naquela época, ir ao estádio também significava ter um rádio no ouvido. O sinal do jogo e a voz do comentarista chegavam simultaneamente. Eram eles que sabiam nomear a beleza. Vozes que comoviam multidões com uma única frase, que transformavam um chute errado em uma tragédia grega ou um gol do meio-campo em uma epopeia coletiva. Para o garoto que gravava da sala de casa, eles eram semideuses.
Mais tarde, enquanto estudava na Universidad de Antioquia e iniciava meu envolvimento profissional nesse mundo, compreendi que eles eram algo mais interessante: eram seres humanos. Pessoas com um microfone na mão, uma plateia ouvindo-os e, lá no fundo, a mesma tensão não resolvida que todos nós, amantes do futebol, carregamos. Essa tensão — entre o que se sente e o que se diz — é a essência de tudo o que veio depois.
Vivenciando o futebol a partir de diferentes perspectivas.
Trabalhei em diversas áreas do futebol. Depois de jogar por alguns anos em torneios da liga de Antioquia — com mais entusiasmo do que talento, diga-se de passagem — passei a atuar como árbitro. Em seguida, fui para a mídia, com um gravador na mão — não mais aquele Silver da minha infância, mas um profissional, daqueles que se mostravam como comprovante de identidade antes da credencial de imprensa — correndo atrás de declarações nas salas de imprensa.
E então, dentro de uma equipe profissional: ele atendia jornalistas, gerenciava o acesso deles e redigia boletins às onze horas da noite após uma derrota, buscando o equilíbrio certo entre transparência e prudência institucional.
Três perspectivas diferentes sobre o mesmo fenômeno: a linguagem do futebol como um campo de batalha simbólico onde as palavras não apenas descrevem o que acontece, mas muitas vezes o criam, distorcem ou inflamam. De cada lado, aprendi algo diferente. Mas a lição mais persistente, aquela que sempre retorna, vem de dentro da mídia. Se eu fosse relatar tudo o que vivenciei naqueles corredores, daria para escrever muitos livros.
Sociologia do futebol e a construção de identidades
O futebol tem sua própria gramática, que sociólogos e antropólogos vêm tentando decifrar há décadas. O francês Christian Bromberger o descreveu como um ritual que condensa, em noventa minutos, as tensões mais profundas de uma comunidade: seus medos, suas hierarquias, seus desejos de vitória e sua necessidade de pertencimento.
Pablo Alabarces, da Argentina, analisou como a linguagem dos torcedores de futebol constrói identidades que não se encaixam na linguagem cotidiana: insultos como escudo, cânticos como sinal de identidade tribal, ofensas como liturgia para aqueles que se reconhecem tanto pelo que amam quanto pelo que odeiam. Seu compatriota Eduardo Archetti foi ainda mais longe: o futebol é um dos poucos espaços onde a violência verbal não só é tolerada, mas ritualizada, esperada e, em muitos casos, celebrada como sinal de autenticidade.
Jornalismo esportivo versus a linguagem dos torcedores
O problema não é que essa gramática exista. O problema é quando jornalistas a adotam como se fosse sua. E pior ainda, quando a normalizam.
Porque existe uma diferença essencial — frágil, mas fundamental — entre o torcedor gritando nas arquibancadas e o jornalista falando ao microfone, escrevendo uma coluna ou comentando em uma tela. O torcedor fala a partir de um lugar de amor às vezes cego, da dor do resultado ou de uma identidade que não negocia nem exige atenção. O jornalista, por outro lado, fala a partir de uma posição de mediação: interpretando, contextualizando e guiando. Ou pelo menos, deveria.
O microfone não é uma extensão da camiseta — aquela que muda de estampa a cada estação como estratégia de marketing. O comentário, a coluna, a discussão no Twitter ou o vídeo do TikTok: todos são, ou deveriam ser, instrumentos de compreensão pública. Mas essa linha divisória, no ecossistema de comunicação atual, tornou-se tão permeável que às vezes é invisível.
Mídias digitais, algoritmos e discurso agressivo
As plataformas digitais não inventaram a linguagem agressiva no futebol. Ela já existia, estava enraizada na cultura dos torcedores, nas conversas nas arquibancadas ou nas cabines de transmissão — bem, agora a maioria nem vai ao estádio e transmite de estúdios ou de casa. O que a mídia digital fez foi dar a ela um palco infinito e gratificação instantânea.
Um comentário polêmico não apenas se propaga mais do que um artigo bem argumentado, como se propaga mais rápido, gera mais reações e constrói uma comunidade — mesmo que essa rede seja baseada na raiva, e não na compreensão. O algoritmo não distingue entre indignação legítima e explosões gratuitas. Portanto, tudo gira em torno da interação. E a interação, na lógica dessas plataformas, é a moeda que importa.
A pressão de parecer um torcedor no jornalismo esportivo.
Isso afeta a todos igualmente. Desde o comentarista que se empolga demais na cabine de transmissão, ao analista que dá sua opinião no programa do meio-dia, ao jornalista que postou nas redes sociais antes do jogo terminar, ou ao «criador de conteúdo» que oferece análises táticas com o mesmo tom de alguém proferindo insultos em um bar. O formato muda. A tentação permanece a mesma.
Nesse contexto, o jornalista esportivo — independentemente do veículo ou plataforma — enfrenta uma pressão silenciosa, porém constante: assemelhar-se à torcida para sobreviver. Adotar seu tom, seus insultos e sua urgência emocional. Tornar-se, essencialmente, o torcedor mais eloquente do grupo, e não seu interlocutor crítico.
E essa conversão nem sempre acontece num momento dramático. Acontece lentamente, como uma fita cassete gasta de tanto ser rebobinada. Uma palavra a mais aqui, um adjetivo fora de lugar ali, uma transmissão ao vivo ou um comentário em que a pressão falou mais alto.
Testemunhei esse deslize de dentro para fora. Vi-o em contadores de histórias que perderam a linha tênue entre descrever e julgar. Vi-o em comentaristas que confundiram análise com veredicto irrecorrível. Vi-o em jornalistas que se esqueceram do contraste. E senti-o eu mesmo, em momentos de cansaço ou descuido, quando a fronteira entre o que eu pensava como jornalista e o que eu sentia como fã se tornou tênue, quase transparente.
Comunicação institucional e relações com a mídia
Quando eu era responsável pela comunicação de uma equipe profissional, o relacionamento com a mídia era sempre uma negociação entre mundos que precisam um do outro, mas nem sempre se entendem. Os jornalistas queriam acesso, informação e a verdade sem filtros. A instituição queria uma narrativa, controle de danos e proteção para seus membros. Presa no meio, eu tentava traduzir sem trair nenhum dos lados. Era como andar na corda bamba, e os dias de derrota eram o elo mais frágil, o momento em que tudo podia desmoronar.
O que aprendi nessa função é que o comunicador institucional não pode ser o policial do jornalismo, mas também não pode ser seu espelho complacente. Sua responsabilidade — muitas vezes invisível, sempre ingrata — é garantir as condições para que a prática jornalística ocorra com rigor, com acesso real, com transparência e com dignidade para todos. Ele é a ponte entre a instituição e seus membros.
A credencial de imprensa não é um favor concedido ou um privilégio outorgado: é uma ferramenta de trabalho e um símbolo de confiança entre o repórter e a credencial. Quando essa confiança é quebrada — por qualquer um dos lados — algo maior do que um protocolo se rompe.
Importância da responsabilidade
Há uma cena que me vem à mente sempre que penso em tudo isso. Foi depois de uma partida difícil no estádio Atanasio Girardot, na época em que as coletivas de imprensa eram realizadas dentro dos vestiários e não existiam as zonas mistas que hoje estruturam esse ritual. Um jornalista renomado, com décadas de experiência e autoridade conquistada com muito esforço, saiu do corredor usando fones de ouvido e olhando para o gravador. Perguntei a ele se havia gravado a declaração do técnico.
Ele mal ergueu os olhos. Houve uma pausa. Breve, mas intensa.
—“Não importa o que ele disse. O que importa é o que eu digo”, respondeu ele.
Ele não disse isso por maldade. Parecia que disse com a consciência de quem entende que a velocidade venceu a corrida contra o rigor há muito tempo. Mas essa frase resumia todo o problema. Toda a ruptura. Todo o peso de uma profissão que às vezes se esquece do seu propósito.
Hoje, essa mesma frase poderia ser proferida pelo comentarista que emite uma opinião sem ter assistido à partida inteira, pelo analista que constrói sua narrativa antes de ouvir o protagonista, pelo jornalista digital que publica primeiro e verifica depois, se é que verifica. O meio muda. As práticas de jornalismo responsável, não.
O poder da narrativa no futebol e seu impacto social.
O futebol é, entre muitas outras coisas, uma forma de narrar o mundo. Aqueles de nós que contam essa história — por trás de um microfone, uma câmera, um teclado ou a tela de um celular — carregamos uma responsabilidade que vai muito além do resultado da partida. Construímos narrativas que as pessoas usam para se entenderem. Para saber quem ganhou, sim, mas também para saber quem são, de onde vêm e o que merecem.
Linguagem agressiva, insultos como forma de expressão, raiva transformada em método. Tudo isso tem consequências reais além das telas, nos pátios das escolas, nas mesas de restaurantes, em grupos de WhatsApp onde o futebol continua sendo discutido muito tempo depois do apito final do árbitro.
O garoto com o gravador Silver sabia que narrar futebol era reproduzir a emoção. O adulto que mais tarde aprendeu a arbitrar, cobrir partidas e gerenciar a comunicação esportiva sabe que narrar futebol também é escolher qual mundo construir com cada palavra.
Essa escolha não se resolve em códigos de ética ou protocolos de credenciamento. Ela acontece, silenciosa e decisivamente, toda vez que alguém se coloca diante de um microfone, uma câmera, uma coluna ou uma rede social e precisa decidir — em décimos de segundo, como aquele narrador que eu gravava quando criança — se naquele momento é jornalista ou fã.