Resumo
A comunicação pública é um pilar fundamental para garantir o acesso equitativo ao esporte, à atividade física e ao lazer, bem como para fortalecer a relação entre o Estado e os cidadãos. Apesar dos avanços tecnológicos e da diversificação da mídia, as estratégias de comunicação no esporte ainda enfrentam desafios relacionados à fragmentação da mensagem, à falta de interação e à limitada apropriação cidadã. Este artigo examina a comunicação pública na gestão esportiva a partir de uma perspectiva situacional baseada no Planejamento Estratégico Situacional (PES), integrando uma abordagem sociotécnica que analisa a interação entre atores, mídias digitais e narrativas.
Por meio de uma análise teórica e comparativa, são identificadas tendências-chave na comunicação esportiva, como o uso de inteligência artificial, big data , algoritmos, sustentabilidade e comunicação inclusiva. Por fim, são apresentadas recomendações para otimizar a transparência, a participação e a inovação na comunicação esportiva pública, alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e às políticas locais e globais.
Resumo
A comunicação pública é essencial para garantir o acesso equitativo ao esporte, à atividade física e ao lazer, além de fortalecer a relação entre o Estado e os cidadãos. Apesar dos avanços tecnológicos e da diversificação dos canais de comunicação, as estratégias de comunicação esportiva ainda enfrentam desafios como fragmentação da mensagem, interação limitada e baixo engajamento dos cidadãos. Este artigo examina a comunicação pública na gestão esportiva a partir de uma perspectiva situacional baseada no Planejamento Estratégico Situacional (PES), integrando uma abordagem sociotécnica que analisa a interação entre atores, mídias digitais e narrativas.
Por meio de análises teóricas e comparativas, são identificadas as principais tendências em comunicação esportiva, incluindo o uso de inteligência artificial, big data , algoritmos, sustentabilidade e comunicação inclusiva. Por fim, são propostas recomendações para aumentar a transparência, a participação e a inovação na comunicação esportiva pública, em alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e com as políticas locais e globais.
Palavras-chave
Comunicação pública, gestão esportiva, participação cidadã, governo aberto, estratégias de comunicação.
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Introdução
A comunicação pública na gestão esportiva é mais do que apenas a disseminação de informações. É um conceito que, quando implementado, fortalece a coesão social, a transparência governamental e a participação cidadã. Em um mundo hiperconectado, onde a digitalização transformou os modelos tradicionais de comunicação, as entidades públicas enfrentam o desafio de orientar suas estratégias para novos cenários midiáticos e dinâmicas cidadãs que exigem uma interação mais horizontal e participativa.
As Nações Unidas reconheceram o papel do esporte no desenvolvimento sustentável e expressaram a necessidade de implementar estratégias de comunicação inclusivas e acessíveis para garantir que todas as pessoas, independentemente de sua localização geográfica ou status socioeconômico, possam se beneficiar das oportunidades proporcionadas pela atividade física e recreação. No entanto, apesar dessas diretrizes, barreiras à comunicação pública sobre esporte persistem na América Latina, relacionadas à falta de coordenação interinstitucional, à exclusão de comunidades e ao uso limitado de tecnologias emergentes para a gestão da comunicação.
Do ponto de vista teórico, este artigo baseia-se no Planejamento Estratégico Situacional (PES) de Carlos Matus, uma abordagem que permite compreender a comunicação pública como um processo dinâmico e flexível, onde a interação entre atores, a adaptação a contextos em mudança e a combinação de ferramentas tradicionais e digitais são decisivas para a eficácia das mensagens. Incorpora também as contribuições de Manuel Castells sobre a «sociedade em rede» e o poder da comunicação, juntamente com uma análise de narrativas transmidiáticas e modelos de comunicação participativa aplicados ao esporte.
Este artigo busca analisar como a comunicação pública pode fortalecer a gestão esportiva em entidades públicas, fomentando relacionamentos mais efetivos com os cidadãos. Utilizando uma abordagem narrativa e análise teórica, serão explorados os principais desafios e oportunidades nesse campo, identificando estratégias inovadoras que transformem a comunicação em uma ferramenta de participação e empoderamento social.
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O problema
A gestão da comunicação pública no esporte enfrenta desafios que limitam sua eficácia e impacto junto aos cidadãos. Em muitos casos, a comunicação se limita à divulgação de eventos e conquistas administrativas, sem uma estratégia clara que garanta a continuidade da mensagem ou a conexão com a comunidade. Além disso, o uso de linguagem técnica e inacessível dificulta a apropriação da mensagem, criando um distanciamento entre as organizações e a população. A falta de inclusão e representatividade no conteúdo limita o alcance das campanhas de comunicação, enquanto a comunicação unidirecional impede a interação e a participação dos cidadãos.
Da mesma forma, a percepção de autopromoção por parte de autoridades públicas afeta a credibilidade, o que impacta a confiança pública. Outro problema é a falta de métricas e avaliação do impacto da comunicação, o que dificulta a otimização de estratégias. Da mesma forma, a falta de preparação para crises de comunicação e a desinformação representam riscos à reputação das organizações esportivas e à confiança pública no setor.
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Metodologia utilizada
Para esta análise da comunicação pública na gestão do esporte, lazer e atividade física em entidades públicas, utilizou-se uma metodologia baseada em revisão bibliográfica e teórica. Essa abordagem permitiu um exame qualitativo de conceitos, modelos de comunicação aplicados no campo esportivo e estratégias que se mostraram eficazes na interação entre entidades governamentais e cidadãos.
A revisão bibliográfica incluiu fontes de referência em comunicação pública, gestão esportiva e participação cidadã, bem como a Constituição Colombiana, a Lei 181 de 1995, a Lei 1712 de 2014, a Carta Internacional da UNESCO para a Educação Física e o Esporte e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O Planejamento Estratégico Situacional (PES) também foi incorporado, possibilitando uma abordagem sociotécnica que considera a comunicação como um processo dinâmico.
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Conceituação da comunicação pública e esportiva
A comunicação pública é um pilar fundamental na gestão do esporte, da recreação e da atividade física em entidades públicas. Sua implementação adequada fortalece a relação entre o Estado e os cidadãos, garantindo o acesso à informação, a participação ativa e o desenvolvimento de políticas esportivas inclusivas. No entanto, seu impacto vai além da transmissão de mensagens. Como afirma Castells (2009), «comunicação é compartilhar significados por meio da troca de informações» (p. 87). Isso implica uma interação dinâmica entre múltiplos atores dentro de um ecossistema social, cultural e tecnológico.
Dessa forma, o esporte adquire um valor estratégico dentro da comunicação pública. Conforme consta no Artigo 52 da Constituição Política Colombiana (1991), o acesso ao esporte e à recreação é um direito fundamental, o que torna sua promoção um dever do Estado. A Lei 181 de 1995, conhecida como Lei do Esporte, reforça essa ideia ao estabelecer que as políticas públicas devem garantir o acesso equitativo e incentivar a participação cidadã em atividades esportivas e recreativas (Congresso Colombiano, 1995). Essas leis estão alinhadas a princípios universais, como a Carta Internacional de Educação Física, Atividade Física e Esporte da UNESCO (2015), que reconhece a comunicação como um meio essencial para democratizar o acesso ao esporte e promover valores de inclusão, equidade e bem-estar social.
Por isso, é essencial diferenciar comunicação pública de comunicação institucional. A comunicação pública, como explica Ladrón de Guevara (2020), é entendida como «o conjunto de ações e ferramentas de comunicação à disposição das administrações estatais para se conectar com os cidadãos» (p. 30). Da mesma forma, Campillo (2010) destaca que «sua função não é simplesmente informar, mas deve servir como instrumento para garantir a participação dos cidadãos na vida pública e responsabilizá-los por suas escolhas pessoais em um contexto democrático» (p. 49). Portanto, a abordagem da comunicação pública é inclusiva e busca fortalecer o acesso à informação, a transparência e o exercício da democracia participativa.
A comunicação institucional, por sua vez, concentra-se na gestão da imagem, reputação e posicionamento de uma entidade no ecossistema público ou privado (Rodrich-Portugal, 2012), e isso não é alheio ao campo esportivo. Pode incluir a promoção das conquistas de uma instituição, o fortalecimento de seu reconhecimento e a gestão de seus relacionamentos com stakeholders estratégicos. A confusão entre esses conceitos pode levar a estratégias de comunicação que priorizam a imagem da instituição em detrimento da participação cidadã, minando a confiança e a credibilidade na gestão pública do esporte.
Organizações esportivas públicas frequentemente utilizam estratégias de comunicação institucionais em vez de públicas, concentrando seus esforços na autopromoção de autoridades ou administrações, em vez de facilitar a interação real com os cidadãos. Isso pode gerar uma percepção negativa na sociedade, onde as campanhas de comunicação são vistas como estratégias de marketing político em vez de ferramentas para fortalecer o direito ao esporte e à recreação.
Outro elemento dessa distinção é o uso de canais de comunicação. Enquanto a comunicação institucional tende a se concentrar na mídia oficial e no discurso estruturado, a comunicação pública deve usar canais mais acessíveis e próximos dos cidadãos. Nesse sentido, o uso de redes sociais, plataformas digitais e narrativas transmidiáticas é essencial para alcançar maior interação e participação. Castells (2009) destaca que “a convergência da internet e das comunicações sem fio levou ao desenvolvimento de redes horizontais de comunicação interativas que conectam o local e o global a qualquer momento” (p. 101). Aplicado ao esporte, isso significa que as estratégias de comunicação devem alavancar essas ferramentas para gerar diálogos em tempo real e fomentar a apropriação cidadã das iniciativas esportivas.
Nesse sentido, a comunicação pública é essencial para a construção da cidadania e a consolidação de sociedades democráticas. Sua função vai além de informar ou disseminar mensagens institucionais: envolve gerar diálogo e construir significados compartilhados que permitam aos cidadãos exercer seu direito à informação e à participação.
Como afirma Ladrón de Guevara (2023), “a comunicação pública é a possibilidade de uma instituição, por meio de ferramentas e meios, gerar socialização entre seus habitantes, permitindo que sejam ouvidos e dando importância às suas opiniões” (p. 42). Nessa perspectiva, a comunicação pública não deve ser entendida como um processo unidirecional no qual o Estado transmite informações à sociedade, mas sim como um modelo de comunicação circular e multidirecional que envolve diferentes atores na geração e disseminação do conhecimento. Isso coincide com o que aponta Martín-Barbero (1986), que defende que a comunicação é um espaço de mediação onde se articulam diferentes discursos, identidades e relações de poder.
Na gestão esportiva, a comunicação pública é fundamental para democratizar o acesso ao esporte e à recreação. A Lei 181 de 1995 estabelece que a promoção do esporte deve ser pautada em critérios de equidade e participação, de modo que as estratégias de comunicação devem garantir que a informação chegue a todos os setores da sociedade, especialmente aqueles historicamente excluídos desses espaços. Esse princípio está alinhado à visão da Carta Internacional da UNESCO para a Educação Física e o Esporte (2015), que enfatiza a necessidade de os Estados adotarem estratégias de comunicação inclusivas para fortalecer a participação no esporte. Além disso, a comunicação deve ser uma ferramenta para o fortalecimento do tecido social e a construção da identidade coletiva.
A comunicação esportiva é uma área especializada dentro da comunicação que se concentra na disseminação, promoção e gestão de conteúdos relacionados ao esporte e à recreação. Sua importância reside na capacidade de mobilizar cidadãos, gerar identidade coletiva e fortalecer a cultura esportiva na sociedade. Arango-Forero (2005) enfatiza que jogos e esportes possuem um forte componente simbólico e cultural, portanto, sua comunicação deve ir além da mera divulgação de eventos e conquistas institucionais.
Por sua vez, Medina-Pérez (2013) indica que «se partirmos do contexto da modernidade, segundo o qual o esporte deve contribuir para a formação do cidadão e da identidade nacional, e se há vários anos o ser humano se encontra em uma sociedade de mercado que privilegia o consumo e concebe o esporte como uma indústria» (p. 172), o esporte deve ser visto por meio de narrativas compartilhadas que transcendem a esfera competitiva. Nesse caminho, a comunicação esportiva deve ser integrada como componente estratégico na gestão pública do esporte.
Como afirma Rojas-Torrijos (2014), o jornalismo se transformou, «a ponto de se tornar atualmente o produto de informação com maior alcance social e o mais procurado e consumido em muitos países do sul da Europa e da América Latina, tanto na imprensa tradicional, rádio e televisão, quanto nas novas mídias digitais» (p. 181), onde o conteúdo é articulado em múltiplas plataformas e formatos, permitindo maior interação do público. Essa abordagem é essencial para as entidades públicas, pois facilita o acesso à informação e promove a participação ativa dos cidadãos em iniciativas esportivas.
Por sua vez, Ballesteros-Herencia (2021) destaca que a comunicação no esporte “tem um grande impacto na sociedade e na economia atuais” (p. 163), o que significa que os departamentos de comunicação devem sempre se questionar sobre suas relações com seus públicos interno e externo. Da mesma forma, é importante destacar o impacto das novas tecnologias na comunicação esportiva. Ballesteros-Herencia (2021) também menciona que “as organizações esportivas devem levar em conta que a internet mudou a forma como o público assimila informações” (p. 163).
Neste contexto, e como aponta Medina-Pérez (2013), é essencial reconhecer que a Internet, direta ou indiretamente, tem sido o fio condutor de muitas das transformações nas tecnologias de informação e comunicação, como reafirma Castells (2009): “a disseminação da Internet e das comunicações sem fio descentralizou as redes de comunicação, permitindo múltiplos pontos de entrada na rede das redes” (p. 111). Isso transformou a forma como as entidades públicas se comunicam no campo esportivo, ampliando as possibilidades de interação com os cidadãos por meio de redes sociais, plataformas de streaming e aplicativos móveis.
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Eixos estratégicos da comunicação pública do desporto
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) (2015) afirmou que o acesso ao esporte e à recreação é um direito fundamental e que sua promoção deve ser realizada sob os princípios de equidade e inclusão. Por isso, a comunicação garante que as informações sobre programas esportivos cheguem a toda a população e que existam mecanismos que permitam o feedback e a participação dos cidadãos na formulação de políticas públicas esportivas.
Da mesma forma, a experiência dos cidadãos com a comunicação esportiva pública é essencial para avaliar o impacto das estratégias de comunicação. Não basta simplesmente transmitir informações; é necessário gerar um processo no qual os cidadãos se sintam ouvidos, representados e motivados a interagir com as instituições esportivas. Dessa forma, as narrativas transmidiáticas possibilitam a construção de comunidades em torno do esporte, facilitando espaços de diálogo e colaboração.
Governo aberto e transparência na comunicação esportiva
O governo aberto promove a transparência, a participação cidadã e a colaboração entre o Estado e a sociedade na gestão pública (García-García, 2014). No campo esportivo, a implementação de estratégias de governo aberto é essencial para garantir que as políticas e os recursos alocados à recreação e à atividade física sejam geridos de forma eficiente e em benefício dos cidadãos.
A comunicação pública facilita o acesso à informação e gera mecanismos de interação que fortalecem a confiança na gestão esportiva. Noveck (2014) argumenta que governo aberto não se trata apenas de publicar dados, mas também de criar canais que permitam a interação entre cidadãos e Estado na tomada de decisões. Isso implica que as entidades públicas devem ir além da simples divulgação de informações sobre programas esportivos e estabelecer espaços onde os cidadãos possam conhecer, debater e avaliar as ações governamentais neste setor.
Na Colômbia, a Lei 1712 de 2014 sobre Transparência e Acesso à Informação Pública estabelece que todos os entes estatais devem garantir o direito dos cidadãos de conhecer e acessar informações sobre a gestão dos recursos públicos (Congresso da República, 2014). Isso significa que informações sobre investimentos em infraestrutura, programas de promoção esportiva e alocação de recursos devem estar disponíveis de forma clara, acessível e compreensível para toda a população. No entanto, em muitos casos, esses dados são comunicados em formatos inacessíveis, utilizando terminologia técnica ou sem mecanismos adequados de consulta aos cidadãos. Além da publicação de informações, a transparência na comunicação esportiva exige a implementação de mecanismos de responsabilização e monitoramento cidadão.
Eaves (2009) argumenta que o acesso aos dados só é valioso se forem criados mecanismos que permitam sua análise, discussão e aplicação na tomada de decisões. Isso significa que as entidades responsáveis pela gestão esportiva devem criar espaços de participação onde os cidadãos possam expressar suas preocupações, formular propostas e monitorar as políticas implementadas.
Do ponto de vista da comunicação digital, a transparência na gestão esportiva também deve considerar a interação nas mídias sociais e plataformas tecnológicas. Castells (2009) aponta que “a comunicação digital descentralizou o acesso à informação, permitindo que múltiplos atores participem da construção do discurso público” (p. 111). Isso implica que as entidades esportivas devem utilizar ferramentas como transmissões ao vivo, fóruns online e consultas cidadãs nas mídias sociais para fortalecer a transparência e promover uma comunicação mais aberta e bidirecional.
Abordagem sociotécnica na comunicação esportiva
Como mencionado anteriormente, a comunicação esportiva em entidades públicas deve ser entendida como um processo dinâmico no qual interagem diversos fatores sociais, tecnológicos e políticos. Uma abordagem sociotécnica nos permite entender a comunicação pública como um sistema no qual a tecnologia, os atores envolvidos e a dinâmica social influenciam a forma como a informação é produzida, disseminada e apropriada pelos cidadãos.
Thomas, Becerra e Bidinost (2019) apontam que “todas as dinâmicas de coconstrução ocorrem no âmbito de alianças sociotécnicas heterogêneas” (p. 128), ou seja, em todo processo há vínculos com diversos atores, como sugere Lévy (2007), que sustenta que “os sistemas culturais não são alheios aos sistemas tecnológicos ou aos sistemas sociais, nem há razão para considerar tecnologia, cultura e sociedade como entidades separadas” (p. 15).
Portanto, são redes interconectadas nas quais atores — humanos e não humanos — participam da construção da realidade. Aplicado à comunicação esportiva, isso significa que mensagens e estratégias de disseminação não podem ser concebidas isoladamente, mas devem considerar ferramentas tradicionais e digitais, comunidades, estruturas de poder e meios de interação existentes, para construir alianças de confiança e redes colaborativas entre entidades públicas, atores privados, comunidades esportivas e cidadãos.
Portanto, a abordagem sociotécnica da comunicação esportiva permite compreender as interações entre tecnologia, atores e dinâmicas sociais na construção de estratégias de comunicação eficazes. Para fortalecer a gestão esportiva em entidades públicas, é essencial adotar modelos flexíveis e adaptativos, alavancar o ecossistema midiático existente para o engajamento cidadão e construir redes colaborativas que ampliem o impacto das mensagens e a apropriação da informação pela sociedade.
Planejamento estratégico situacional em comunicação esportiva
Do ponto de vista sociotécnico, o planejamento estratégico em comunicação esportiva deve considerar a interação entre tecnologia, atores sociais e políticas públicas. Matus (1996), com seu modelo de Planejamento Estratégico Situacional (PES), propõe que a comunicação deve ser flexível, adaptável e focada na resolução de problemas específicos. Esse modelo se concentra na tomada de decisões em contextos complexos, envolvendo múltiplos atores com interesses diversos. Sua aplicação na comunicação esportiva pública permite o desenho de estratégias flexíveis e adaptativas, nas quais o planejamento responde aos problemas reais dos cidadãos e incentiva sua participação ativa na gestão esportiva.
Matus (1993) argumenta que o PES difere do planejamento tradicional por não se basear em uma sequência rígida de ações predeterminadas, em fases ou estágios, mas sim na capacidade de adaptação às mudanças no ambiente. Isso implica que a comunicação no esporte deve ser vista em estágios e concebida como um processo dinâmico, no qual a interação com a comunidade e a análise das condições contextuais permitem o ajuste contínuo das estratégias.
Outro aspecto abordado pelo autor é a definição de cenários e estratégias de resposta, que permitem ao planejamento considerar alternativas a situações imprevistas. «Tal planejamento deve ser elaborado a partir de quatro etapas: Explicativa (quando os atores expressam seus problemas e necessidades); Normativa (como as coisas deveriam ser); Estratégica (a articulação do que deveria ser com o que pode ser); e Tático-operacional (a ação ou o agir, o fazer)» (Marín-Marín, 2024).
Por outro lado, e para lembrar, Castells (2009) afirma que “a capacidade das redes de introduzir novos atores e novos conteúdos no processo de organização social, com relativa independência dos centros de poder, aumentou com a mudança tecnológica” (p. 48). Isso implica que as estratégias de comunicação no esporte devem aproveitar o potencial das tecnologias para descentralizar a informação e permitir maior interação com os cidadãos. Tecnologia que é entendida a partir de uma abordagem sociotécnica: tecnologia artefactual, tecnologia processual e tecnologia organizacional (Thomas, Becerra & Bidinost, 2019).
Definir objetivos e segmentar públicos
Um dos primeiros passos no planejamento estratégico de comunicação esportiva é definir objetivos claros e mensuráveis. Essas metas devem estar alinhadas às políticas públicas e, principalmente, atender às necessidades e expectativas da comunidade. Além disso, é crucial segmentar o público para elaborar mensagens adequadas a cada grupo populacional.
Como observa Castells (2009), “a digitalização possibilitou a personalização da comunicação, facilitando a adaptação das mensagens aos interesses específicos de cada público” (p. 101). No caso do esporte, as estratégias de comunicação devem considerar fatores como idade, gênero, status socioeconômico e as diversas necessidades e hábitos de consumo de informação de diferentes segmentos da população.
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Tendências em comunicação esportiva
Entre as principais tendências em comunicação esportiva estão a comunicação expandida e transmidiática, a interação real e digital, o uso de plataformas digitais especializadas, a acessibilidade, a inclusão e a sustentabilidade, o uso de ferramentas de inteligência artificial, a personalização de conteúdo, o uso de big data para tomada de decisões estratégicas e algoritmos para distribuição de conteúdo.
A comunicação ampliada baseia-se na ideia de que as mensagens esportivas devem ser projetadas para múltiplas plataformas, permitindo que os cidadãos acessem as informações de forma flexível e personalizada. No entanto, como aponta Scolari (2013), a comunicação transmidiática não se limita à reprodução do mesmo conteúdo em diferentes canais, mas sim se concentra na comunicação transmidiática, na qual a narrativa é fragmentada e estrategicamente distribuída em diferentes formatos e mídias.
Além disso, o autor destaca que as narrativas transmidiáticas permitem que o público participe ativamente da construção da história. No setor esportivo público, isso envolve a combinação de mídia tradicional, redes sociais, transmissões ao vivo, plataformas interativas e estratégias participativas nas quais os cidadãos se tornam cocriadores de conteúdo. Um dos principais desafios da comunicação expandida e transmidiática é a necessidade de gerar conteúdo único para cada plataforma (Marín-Marín, 2017).
A comunicação esportiva deve facilitar a interação entre instituições e cidadãos, combinando espaços de participação presencial com ferramentas digitais que ampliem o alcance das mensagens. Outra tendência é o uso de inteligência artificial (IA) na comunicação esportiva, que tem permitido uma melhor personalização das mensagens e interação com os cidadãos. Noveck (2023) sugere que a IA pode ser usada para fortalecer a comunicação pública, melhorando a eficiência da entrega de informações e a personalização das mensagens.
Algoritmos são fundamentais para a forma como os cidadãos distribuem e consomem informações esportivas. Plataformas como Facebook , Instagram , TikTok e YouTube utilizam sistemas de recomendação baseados em IA que priorizam determinados conteúdos em detrimento de outros, o que pode influenciar o acesso a informações sobre programas esportivos.
Da mesma forma, a sustentabilidade tornou-se uma questão central na gestão esportiva e deve ser refletida nas estratégias de comunicação pública. A UNESCO (2023) enfatizou a importância de promover práticas sustentáveis em eventos esportivos e atividades recreativas, reduzindo a pegada ambiental e incentivando o uso responsável dos recursos.
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Conclusões e recomendações
A comunicação pública na gestão do esporte, recreação e atividade física em entidades públicas não deve servir apenas ao propósito de informar, mas também deve se consolidar como um mecanismo estratégico de participação, integração social e transformação cultural. De uma perspectiva local, demonstrou-se que o planejamento da comunicação no setor esportivo na Colômbia enfrenta desafios estruturais, como fragmentação da mensagem, falta de coordenação interinstitucional e limitada apropriação cidadã das políticas esportivas.
No entanto, esses desafios não são exclusivos do contexto colombiano; eles refletem complexidades globais na comunicação pública sobre esportes, relacionadas ao acesso equitativo à informação, à digitalização e à democratização da comunicação em sociedades hiperconectadas.
O Planejamento Situacional Estratégico em Comunicação Esportiva deve incluir diversas ferramentas e táticas para garantir que as mensagens cheguem efetivamente ao público. Essas ferramentas incluem:
- Comunicados de imprensa e mídia tradicional: embora as plataformas digitais tenham ganhado importância, a mídia tradicional, como rádio, televisão e jornais, continua essencial para disseminar informações em comunidades com acesso limitado à internet.
- Mídias sociais e plataformas digitais: As mídias sociais permitem uma interação mais próxima com os cidadãos, facilitando a disseminação de informações em tempo real e a criação de comunidades em torno do esporte.
- Estratégias de storytelling e narrativas visuais: A comunicação no esporte deve ser baseada em narrativas que gerem emoções e se conectem com os cidadãos. O uso de vídeos, depoimentos e campanhas audiovisuais pode fortalecer o impacto das mensagens e promover a apropriação cidadã das políticas esportivas.
- Espaços para participação e consulta cidadã: A comunicação não deve ser unilateral. É necessário criar espaços onde os cidadãos possam expressar suas opiniões, fazer sugestões e participar da tomada de decisões sobre programas esportivos.
- Fortalecer o acesso equitativo às informações esportivas: Recomenda-se adotar abordagens de comunicação acessíveis, garantindo que populações vulneráveis possam receber informações relevantes sobre programas e oportunidades no setor esportivo.
- Implementação de estratégias transmídia: A combinação de mídias sociais, plataformas digitais e mídia tradicional ampliará o alcance das mensagens e gerará maior interação com os cidadãos.
- Usando ferramentas tecnológicas para medir o impacto: Implementar big data , inteligência artificial e análise digital nos permitirá avaliar a eficácia das estratégias de comunicação e fazer ajustes com base em dados precisos e atualizados.
- Integrar a comunicação pública sobre esporte às políticas de sustentabilidade: É essencial que as estratégias de comunicação no esporte incluam mensagens sobre responsabilidade ambiental e desenvolvimento sustentável, alinhadas aos princípios da Agenda 2030 da ONU.
- Garantir transparência e responsabilização na gestão esportiva: os cidadãos devem ter acesso a informações claras e verificáveis sobre o investimento em infraestrutura esportiva, o uso de recursos públicos e a eficácia das políticas implementadas.
Portanto, a comunicação pública aplicada ao esporte deve obedecer a três princípios essenciais: acessibilidade, participação e transparência. Primeiro, deve garantir que todos os cidadãos, independentemente de sua condição social ou localização geográfica, tenham acesso a informações sobre programas esportivos e recreativos. Segundo, deve incentivar a participação cidadã na formulação e implementação de políticas esportivas, criando espaços de deliberação e responsabilidade compartilhada. Por fim, deve garantir a transparência na gestão dos recursos alocados ao esporte, evitando o uso da comunicação para fins políticos ou de autopromoção institucional.
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